Rodrigo Coli: “Cada um por si, nenhum por todos”

Virou assunto corriqueiro: mais uma noite de futebol onde um clube brasileiro é diretamente prejudicado pela Conmebol. O roteiro é facilmente reconhecido e de certa forma até previsível, pois há um padrão; são partidas de competições sul-americanas e o duelo é sempre entre uma equipe argentina e uma de outro país, preferencialmente brasileiros. Seja qual for o desenrolar, há a certeza de que alguma punição por escalação irregular ou algum pênalti ou expulsão mal marcados irão beneficiar os hermanos. Quando o “erro” está no lado oposto, escalações irregulares não são passíveis de punição, nem com uma multinha, pois em último caso a confederação pode chamar a responsabilidade para si e isentar o clube. Arbitragens tendenciosas nem se pensa.

Essa foi a tônica em alguns confrontos recentes. Alguns dizem que os argentinos tem moral em excesso dentro da entidade pra explicar as eliminações de Chapecoense, Deportes Temuco e Santos pra Lanús, San Lorenzo e Independiente, mais recentemente, e a ausência de punições pra River e Boca Juniors, que se envolveram em casos de escalações irregulares nesta edição da Copa Libertadores. Outros preferem afirmar que o problema é a falta de moral dos clubes brasileiros depois de mandatos vergonhosos dentro da CBF (incluindo presidente procurado e outro que não sabe se portar ou honrar um voto combinado), o que inclusive explicaria a expulsão de Dedé, na noite desta quarta, com a utilização do VAR em um claro lance não intencional de jogo. Não sabemos, na verdade, qual é o fato gerador dessa onda. Mas só nós sabemos o quanto estamos sendo injustiçados.

Esperar alguma posição da CBF é tão útil quanto aguardar que uma vaca converse com você. Além de ser uma instituição tomada pela corrupção e pelo amadorismo, a nossa confederação não consegue cumprir o simples papel de representar os clubes que a compõem e que lhe dão sentido de ser. Mais vergonhosa, entretanto, é a ausência de posicionamento dos demais clubes brasileiros.

O futebol nacional é um dos mais disputados do mundo em função dos muitos “clubes grandes” aqui presentes. Isso, entre outros fatores, eleva a competitividade e a rivalidade de nossos confrontos. Mas é de uma infantilidade esdrúxula e covarde o fato de nenhum clube ter a capacidade de se solidarizar com o outro, sabendo que ele muito provavelmente será o próximo bobo da vez. O próprio Cruzeiro, que hoje sofre, o que fez quando o Santos passou pelo último caso de punição? O que o Flamengo fez quando o River passou ileso pela escalação irregular de um jogador em 7 partidas seguidas de Libertadores? Mostrar indignação nem sempre resolve, mas é o ponto de partida para atitudes concretas e é a demonstração do caráter com a qual se lida.

Há décadas os clubes brasileiros questionam a autoridade da CBF sobre o futebol nacional, mas as fracassadas tentativas de união pararam todas em aspectos políticos ou passionais baixos demais para a grandeza da nossa paixão e qualidade futebolística. O Clube dos Treze foi incapaz de ter posição para apoiar o título de 87 do Flamengo, no campeonato organizado pela própria organização. Recentemente foi destituído em função das divergências que os clubes tiveram quanto à negociação de cotas de TV. A Primeira Liga, esboço de nova tentativa de união, também se encontra minada pela ausência de calendário único e pelas divergências sobre o mesmo tópico anterior. Tudo fruto de uma incapacidade absurda de se dialogar pelo bem comum.

Recentemente tivemos problemas com a convocação nada transparente feita pela CBF para os amistosos contra Estados Unidos e El Salvador. O Flamengo, com calendário folgado, solicitou à confederação e ao Corinthians a mudança de data, para a semana seguinte, para que Paquetá e Fagner (que na verdade nem foi convocado alegando uma curiosa lesão) pudessem atuar. A resposta do presidente do time paulista? Não. Quis tentar levar alguma vantagem dos desfalques rubro-negros, aproveitando para alfinetar o nosso presidente. Não passou nem perto de uma postura ética, respeitosa ou amistosa. No futebol brasileiro, impera a lei do “farinha pouca, meu pirão primeiro”.

Lanço esse texto como um desabafo. Mas não contra a escória da CBF e da Conmebol, que acabam sendo sucessivamente reflexos de escolhas políticas de nosso país. Minha indignação se dirige aos clubes brasileiros, incapazes do mínimo de solidariedade para com seus pares. São como um elefante amarrado ao chão por uma corda: não tem noção da força que tem. Deixam cada um com seus problemas enquanto o mínimo de organização de alguns clubes argentinos consegue manipular até a suja e corrupta Conmebol. São incapazes de se organizarem e de lutarem pelas mesmas bandeiras, em função do simples fato de serem rivais em campo. Não sabem a diferença entre futebol e administração, entre bastidor e campo. Ainda são amadores, e por isso acabam sendo covardes. Os dirigentes celestes já estão em Assunção cobrando respostas e explicações enquanto a delegação do Palmeiras se prepara para seu jogo e o Grêmio se encontra tranquilo com a vitória fora de casa. Parecem jogar outro campeonato e viver em outro mundo, sem nenhuma vergonha de corroborarem ao se calarem. Ontem foi o Santos, hoje o Cruzeiro, amanhã talvez nós… e a roda segue girando. Parabéns aos responsáveis.

SRN!
Rodrigo Coli
Twitter: @_rodrigocoli

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