A Diretoria do Flamengo toma decisões usando as redes sociais?

“Sempre eu hei de ser…” um cara ligado na internet. Hoje eu gostaria de tocar em um tema delicado. Tenho certeza que testarei a minha popularidade, que já é baixa, nessa coluna.  Porém, estou aqui para opinar e não para ser popular. Vamos ao que interessa: o jornalista André Rocha, em seu blog do dia 30 de março no UOL, sugeriu que a diretoria do Flamengo conduz o clube usando redes sociais. Ipsis litteris: “O futebol do Flamengo é administrado pelas redes sociais”.

Primeiro precisamos considerar se isso é verdade. A torcida em 2017 se auto-elogia por ter trazido o Rueda e o Diego Alves e ter participado na contratação do Everton Ribeiro. O mecanismo que o André Rocha deve ter sugerido é: ventila-se um nome no mercado, esse nome escapa intencionalmente para as redes sociais, que suportam ou rejeitam o nome. Como potencialmente ocorreu com o Cuca, que por aparentemente ter uma rejeição imensa na internet, teve a sua contratação colocada de lado.

Durante uma semana fiz um levantamento da relação entre clubes e redes sociais em outros países, especificamente: Portugal, Espanha, Inglaterra e Itália. Nessa pesquisa incluí os seguintes times: Benfica, Porto, Sporting, Barcelona, Real Madrid, Sevilha, Chelsea, Everton, Manchester City e United, Roma, Milan e Juventus. Na investigação não pude encontrar nada, em nenhum dos times, que indicasse que eles usavam as redes sociais para tomada decisões. Não encontrei nenhuma menção ou comentários nas imprensas locais (usei, claro, a internet para a pesquisa) com o termos similares aos quais o jornalista usou em seu blog. Mas encontrei coisas interessantes; o Mirror em sua edição de 17 de novembro de 2017 declarou que o Manchester United estava usando redes sociais para convencer jogadores a assinarem com eles. (How Manchester United are using social media to tempt players to sign for them https://www.mirror.co.uk/sport/football/transfer-news/how-manchester-united-using-social-11535862). Um outro artigo, dessa vez do site Calcio Finanza, reduziu a importância financeira das mídias sociais na arrecadação dos clubes (Il falso mito dei social media: i followers non fanno (ancora) guadagnare le società di calcio http://www.calcioefinanza.it/2016/10/06/impatto-social-media-ricavi-societa-calcio/ ). Indiretamente, a matéria sugere que as mídias sociais ajudam na visibilidade mas não dão retorno financeiro direto. No site Bancada de Portugal há uma única menção que indiretamente se relaciona com o tema dessa coluna: Como jogadores profissionais desempregados podem usar as redes sociais para arrumar emprego (As redes sociais são uma arma que os jogadores desempregados ainda usam pouco – https://bancada.pt/futebol/prolongamento/as-redes-sociais-sao-uma-arma-que-os-jogadores-desempregados-ainda-usam-pouco ). Há muitas matérias, em diferentes idiomas, que relacionam a briga entre Real Madrid e Barcelona pela hegêmonia das redes sociais. Nessa pesquisa, também encontrei uma comparação interessante vinda do Metro da Inglaterra, um diretor do Manchester United declarou que o nível de interação nas redes sociais se comparam com religiões: “The level we are engaging at, to put it in context, is akin to religion”     (http://metro.co.uk/2016/11/10/only-religion-is-at-the-same-level-at-manchester-united-on-social-media-says-clubs-managing-director-6248198/ ).

Resumindo a ópera, não encontrei nada que sugerisse que, em algum lugar do mundo, diretorias cedessem aos apelos de torcedores, através de redes sociais, para a contratação e demissão de jogadores ou membros da comissão técnica. Veja, não estou ignorando que existe pressão, em todos os clubes, para que jogadores e treinadores sejam demitidos, o que não se encontra é uma indicação explícita que jogadores sejam demitidos por pressões vindas da internet. Minha experiência sugere ainda que a pressão fora do país é muito menor, tanto em técnico como em jogadores, do que as que vemos no Brasil.

Mas ai posta-se a questão: Deveria o Flamengo consultar as redes sociais para essa tomada de decisão? A minha resposta é direta e simples, e vou contar através de uma passagem que aconteceu comigo no ano passado.

Na final da Copa Sul-Americana eu estava em Lisboa, e decidi assistir ao jogo no local onde os flamenguistas normalmente se reúnem. O local, Bar Snooker Club de Lisboa, na simpática Travessa do Salitre, estava lotado e ninguém estava sendo autorizado a entrar. Fui convidado, sabe lá Deus por quem, para entrar, e assim, consegui me inflitrar no meio dos 200 rubro-negros barrados a porta e entrar no Bar. Até hoje, não sei como consegui a façanha. Dentro do bar, me dirigi para parte mais ao fundo, perto dos banheiros e ao lado do Bar. O local estava muito cheio e dei muita sorte novamente de encontrar um local onde eu pudesse me encostar e assistir ao jogo. Ao meu lado encostou-se Lorival. Um senhor um pouco mais velho do que eu, trabalhador da indústria da construção de Portugal, e afastado do Brasil por 21 anos. Como dois expatriados, trocamos cortesias e começamos a assistir ao jogo. Quando o jogo esfriou, e a tragédia começou a se desenhar, Lorival começou a gritar a cada lance que o Pará pegava na bola: “Vai garoto, mostra que você é craque”. Na primeira vez, dei uma risada, achei que fosse apenas uma ironia qualquer. Eu mesmo entoei cantos no Maracanã: ão, ão, ão Maurinho é seleção, ou mesmo cometi o sacrilégio de dizer que Obina era melhor do que Eto’o. Sarcasmo e ironia carioca (apesar de não ser carioca) e flamenguista. Na minha inocência achei que o gajo estava sendo irônico. Na quatrocentéssima vez que ele berrou, desconfiei que o cara estava falando sério, e perguntei: tá de sacanagem né? O cara sacou o celular dele e me mostrou que além de amar o Pará, o cara era presidente de um fã-clube do jogador, postava pelo menos 10 tweets por dia apoiando o lateral. Perguntei se havia algum parentesco, amigos comuns, alguma razão para esse apoio doidivanos, e a resposta: Não, acho ele um craque de bola.

Interior do bar onde a Fla-Lisboa se reune para ver os jogos
Flamenguistas ansiosos esperando uma chance para entrar e ver a final da Sula

Há muitas variáveis nesse tema, mas a conclusão é relativamente simples: Torcedores não necessariamente entendem de futebol. Torcedores amam o clube, e amor pode ser cego e passional. Lorival, por exemplo, não entendia nada nem de futebol, nem de jogador de futebol. Gostar do Pará é aceitável, achar que ele é craque vai além de qualquer respeito à opinão alheia. Redes sociais estão muito expostas e dão visibilidades, mas não representam, ainda, a maioria… Redes sociais são um termômetro rápido mais impreciso dos humores da torcida, provêem um dado rápido que não exisita 10 anos atrás. Descontentes se manifestam mais do que contentes… E unanimidades são burras.

Espero que o Flamengo consulte as redes sociais apenas depois que decisões tenham sido tomadas, porque a grande maioria das decisões esportivas são técnicas. Decisões sobre camisetas, logos, campanhas, essas presepadas todas  podem e devem ser tomadas através de redes sociais. Percebam: eu não estou sugerindo que a torcida não deva se manifestar, a torcida pode e deve (e é salutar que o faça) se manifestar, estou postulando que a diretoria não se apoie na manifestação das redes sociais para tomadas de decisões técnicas e esportivas. Mas….

Sim, tem um mas. O “mas” é que a diretoria do Flamengo tem cometidos erros imensos na gestão do futebol profissional do Flamengo. Isso pode indicar que até mesmo Lorival pode estar mais certo do que alguns membros do departamento esportivo do Flamengo. Possivelmente, Lorival tivesse até posição dentro do Centro de Inteligência do futebol do Flamengo (ironia mode on ligado).

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