Transformando a paixão em exploRa$ão

É muito indignante entrar no site do Flamengo e ver o preço do ingresso para a final da Copa Sul-Americana. Para quem não é sócio-torcedor, os valores variam de R$240 a R$645. Até mesmo para o associado, é salgado ir ao Maracanã no dia 13 de dezembro: as entradas variam de R$80 a R$245. Mais uma prova cabal de como a atual diretoria não tem um pensamento voltado para o torcedor.

Claro que não dá para ser nostálgico e pedir bilhetes valendo R$10, R$20. No entanto, ao cobrar estes valores abusivos, Eduardo Bandeira de Mello e seus bluecaps, mostram total desconhecimento sobre o perfil da torcida rubro-negra. Um exemplo disso são os pífios números de público nas partidas realizadas na Ilha do Urubu, onde a maior torcida do Brasil não consegue lotar um estádio com capacidade total para menos de 20 mil torcedores.

Considerando apenas o Estado do Rio de Janeiro, o Mais Querido possui 50,4% dos torcedores, segundo pesquisa do Instituto Informa. Ou seja, mais da metade do território carioca é flamenguista. Neste mesmo estudo, é apontado que o rubro-negro tem maior percentual de torcida em todas as classes sociais. No entanto, nas classes C, D e E, a diferença para os rivais aumenta. Para pessoas com até dois salários mínimos, por exemplo, 54,8% são torcedores do time da Gávea.

Outra pesquisa, realizada em nível nacional, do Instituto Ipsos Marplan, mostra que 70% dos flamenguistas são pertencentes às classes C, D e E. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, uma pessoa é considerada de classe média (C) quando possui uma renda mensal de três a cinco salários mínimos. Para ser classe D, é necessário ter vencimentos que sejam entre um e três salários mínimos. Já a classe E é formada por pessoas que recebem até um salário mínimo.

Atualmente, o mínimo no Brasil é R$937. Uma pessoa de classe média recebe, então, entre R$2.811 e R$4.685. Ou seja, um ingresso para a final da Sula, no setor mais barato do estádio para aquele que não é associado, pode representar entre 8,5 e 5,1% do salário bruto mensal de uma pessoa.

Até mesmo o associado paga uma quantia absurda. Um torcedor do plano Raça (o mais popular) vai gastar R$119,90 com o jogo (R$39,90 do plano + R$80 do ingresso no setor norte). Isso representa entre 4,25% e 2,55% do salário mensal de um trabalhador. Isso sem contar o gasto com transporte, alimentação e até mesmo ida de filho ou cônjuge ao estádio. Para quem é trabalhador, a conta não fecha.

Como disse acima, não acredito que a saída seja o famoso “deizão” ou “vintão” por um ingresso. Mas é necessário um estudo de viabilidade, para que sejam praticados valores que caibam no orçamento do torcedor. Se futebol é uma ferramenta de lazer, é preciso pensar em formas que não onerem o trabalhador e nem o clube. Afinal, segundo o balanço financeiro do terceiro semestre do Flamengo, já foram arrecadados R$47.313 milhões com bilheteria apenas neste ano. Isso representa 15,8% da receita bruta de futebol do clube, que conta ainda com direitos de transmissão, patrocínio e programa sócio-torcedor.

Dependendo do resultado da primeira partida, na Argentina, o Maracanã vai estar lotado. Se Deus quiser, o título virá e poderemos enfim, comemorar algo neste ano. Mas, é preciso pensar em saídas para que a paixão do torcedor não seja cada vez mais explorada.

Matheus Brum
Jornalista

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