O incoerente Bandeira e a baixa dos ingressos

Corram, corram! A Black Friday chegou à Gávea. No rol de promoções, entraram as partidas contra Corinthians e Santos. Se você não compareceu ao primeiro jogo, o segundo, que ocorrerá neste próximo domingo, ainda está de portas abertas! Com a bagatela de R$14,00 como preço mínimo nenhum rubro-negro pode deixar de comparecer!

Black Friday na Gávea? Bizarro, não é? E não é o que acontece, efetivamente. A recente política de preços baixos atende somente ao marasmo que abateu o fim da temporada, somado às fracas atuações e pouca competitividade do Campeonato Brasileiro. A torcida, cansada de gritar em vão e de torrar seus míseros salários em jogos de pouca importância e sem nenhuma emoção, simplesmente deixou de comparecer. Abaixar o valor dos ingressos busca, unicamente, trazer de volta aquele torcedor que pode incentivar o time e talvez impedir maiores prejuízos financeiros com a organização dos jogos.

O engraçado, entretanto, é que se trata de uma medida combatida pelo presidente Eduardo Bandeira de Mello. Ele, em 2013, justificou a alta nos ingressos afirmando que o Flamengo passava por “dificuldades”. Este ano, quando questionado sobre os altos preços praticados na Ilha do Urubu, ele se manteve firme na certeza de que não eram os preços os responsáveis pelos lugares vazios. Já que as gratuidades não se esgotavam, o mandatário se contentava em afirmar que “tem pessoas que podem ir de graça e não vão […], não tem preço menor que zero”. Assim, pouco sensato e de boa forma até ignorante, Bandeira se recusava ao questionamento sobre o porquê dos lugares vazios e sua relação com os caros ingressos.

Conveniente e surpreendentemente, porém, os preços caíram nesse fim de ano, acompanhados do silêncio de Bandeira. Ora, se as gratuidades nunca se esgotaram e se os “verdadeiros problemas” (violência na Linha Vermelha e poucas opções de transporte, nas palavras do presidente), continuam os mesmos, o que justifica a medida? Tudo o que foi citado nos primeiros parágrafos, concretamente. É conveniente abaixar os ingressos neste momento, mas é surpreendente que Bandeira decida por fazê-lo depois de expostas todas as suas justificativas.

Não faço aqui uma reclamação pela queda dos preços; faço a reclamação pela demora em fazê-lo e pelos rasos argumentos utilizados para sustentar essa ideia. Argumentos estes que, hoje, são ignorados por quem os levantou. E é aí que indagamos o porquê da teimosia, o porquê da insistência em contrariar toda a base do Flamengo: a sua torcida.

Este não é o primeiro episódio de relutância desnecessária vinda da diretoria do Flamengo, e vivemos na esperança de que suas condutas sejam sempre alinhadas com o que for melhor para o clube. Quando o melhor para o clube parece contrariar a Nação, todavia, não vale uma reflexão maior e mais embasada?

Parabéns, Bandeira e diretoria, pela medida adotada. Mas não se esqueçam: a sua torcida e seu país são majoritariamente pobres. A paixão que cabe à torcida também cabe ao clube. Afinal, se o carro-chefe do futebol é o superávit absoluto, como podemos lidar com pessoas que compram camisas, ingressos, passagens e tudo o que envolve o Flamengo sem ganharem nada em troca? Se os clubes de futebol não são instituições de caridade nem tem culpa pelas mazelas da população, a torcida também não tem culpa pelos absurdas cifras pagas aos jogadores nem pelos altos padrões de custo das arenas modernas. Entre o caro e o barato, respeitemos o conveniente.

SRN!

Rodrigo Coli

Twitter: @_rodrigocoli

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