Coluna do Torcedor: “Teimosia de Zé Ricardo está ‘matando’ o Diego”

Não é de hoje que Zé Ricardo vem sendo contestado no comando técnico do Flamengo. Desde a eliminação da Libertadores, a “cabeça” do treinador está a prêmio. Um dos motivos, sem sombra de dúvida, são suas escolhas.

A principal, apontada de longe como motivo da irritação dos flamenguistas é a insistência com a presença de Márcio Araújo. Entretanto, para não deixar os adeptos ao jogador tristes, este texto não é para criticá-lo, mas sim, para mostrar como que a escolha de uma dupla de volantes com características de marcação tem influenciado negativamente no desempenho do principal jogador do time: Diego.

Desde que chegou ao Flamengo, na metade de 2016, o meia tem um papel fundamental no time. Quase todas as bolas passam pelo seus pés. Contudo, em 2017, coincidentemente depois da eliminação na competição internacional, o camisa 35 não tem atuado bem. Claro que não podemos esquecer da lesão que sofreu diante do Atlético-PR, mas, há outro fator: a formação tática.

Diego estreou no dia 21 de agosto, na vitória diante do Grêmio, por 2 a 1 (com um gol seu), no estádio Mané Garrincha. Ao longo da temporada, foram 18 jogos pelo Campeonato Brasileiro, marcando seis gols e distribuindo três assistências. O meia teve aproveitamento de 88,8% dos passes, sendo o segundo jogador que mais tocava na bola por partida: média de 41,1 toques. Melhor que ele, nos dois quesitos, foi Willian Arão – 89,4% de aproveitamento e média de 45,5 passes por jogo -. E é justamente a falta deste jogador, ou de alguém que faça sua função tática em campo que causa a queda de rendimento do principal craque do time.

Sequência (esq. p/ dir.): Diego, Arão e Márcio Araújo.
Na vitória por 2 a 1 contra a Ponte Preta, na 23ª rodada, Diego com liberdade pelo meio; Arão ajudando com subidas pela direita, além da marcação, e Márcio Araújo fazendo o papel de iniciar as jogadas ofensivas.

Para isso, basta pegar alguns mapas de calor dos dois e ver como havia uma combinação. Diego tinha mais liberdade para atuar na intermediária ofensiva, enquanto o volante ficava responsável por fazer a transição do meio de campo ao ataque. Com esta formação, Márcio Araújo ficava apenas responsável pela marcação e o primeiro passe (melhor aproveitamento do time com 94,5%), não tendo que se aventurar no ataque. Desta forma, foi o terceiro jogador com mais desarmes na equipe (82), perdendo para Jorge (85) e Arão (melhor do torneio, com 110), além de ser o segundo melhor interceptador do certame, atrás de Zé Roberto, do Palmeiras.

Sequência (esq. p/ dir.): Diego, Arão e Márcio Araújo.
No empate sem gols contra o Botafogo, pela 34ª rodada, a situação se repete. Diego com liberdade, Arão pela direita e Márcio Araújo fazendo todo o trabalho defensivo.

Todavia, tudo muda ao entrarmos em 2017. Arão entra em má fase e precisa ser substituído. Há algumas semanas, escrevi sobre os problemas de planejamento do Flamengo, e fui duramente criticado. Apesar do elenco forte que tem montado, a diretoria pecou em alguém que possa fazer esta saída de bola e aparecer como homem surpresa. Afinal, o camisa 5 marcou sete gols e deu oito assistências na temporada passada.

Sem tempo para treinar um jogador no lugar, Zé Ricardo foi para a solução “mais fácil”: colocou Cuéllar. A dupla tem o mesmo número de desarmes, 31. Vantagem para o colombiano, que jogou 11 vezes, contra 16 do companheiro. Mas, em número de interceptações, o camisa 8 vence por 10 a 4. Por fim, na estatística passes, melhor para o camisa 26, que tem 96,1%, contra 94,3%, apesar da bola passar mais pelos pés do brasileiro: média de 44,3 toques por jogo, contra 40,1 do companheiro.

Mesmo com os números parecidos da dupla, houve uma queda de rendimento. Diego não conseguiu mais ser o destaque do time como na temporada passada. Grandes camisas 10, como Zico e Alex, dizem que o jogador desta posição precisa chegar na área, para finalizar. O “maestro” da Gávea não faz mais isso. Nas duas temporadas, tem a mesma média de finalizações (2,2), por partida. Entretanto, há uma queda nos chutes de dentro da área: 1 por jogo em 2016, contra 0,85 em 2017. Pode parecer pouco, mas, ao longo dos jogos, a diferença pode ser fundamental.

Sequência (esq. p/ dir.): Diego,Cuéllar e Márcio Araújo.
No empate contra o Cruzeiro, no Mineirão, os três meio-campistas estiveram na mesma faixa de campo. Diego jogou mais recuado. Observe também que são poucos os pontos de penetração dentro da grande área, ao contrário do que podemos observar nas imagens acima

Diego, com a entrada dos dois volantes, precisa voltar mais para armar o jogo. Nem Márcio Araújo, nem Cuéllar, têm qualidades para poder fazer a transição defesa-ataque como Arão. Tanto que Márcio Araújo não tem nenhuma finalização certa ao longo do Brasileirão. Na construção ofensiva, também não contribui tanto, nenhuma assistência para gol e oito (média de 0,56) passes para finalização. Cuéllar segue o mesmo caminho, nenhuma assistência para gol, e apenas quatro (média de 0,36) passes para chutes. Em efeito de comparação, ano passado, Arão deu 33 passes para finalização, média de 0,89 por peleja.

Sequência (esq. p/ dir.): Diego,Cuéllar e Márcio Araújo.
Na derrota para o Grêmio, em casa, Diego percorreu o campo inteiro. O meia visivelmente fica desgastado tendo que percorrer todo o campo, tanto que foi poupado. Já Cuéllar tenta fazer o papel de Arão, sem sucesso. Lento e sem a mesma qualidade técnica.

Com o camisa 35 voltando, perdemos ele com condições físicas de conseguir chegar à frente com fôlego, não apenas para tabelar com os atacantes, mas também para finalizar. Sem Arão, perdemos o “elemento surpresa”, aquele jogador capaz de furar uma retranca em uma ultrapassagem. Este tipo de jogador, o Flamengo não possuí no elenco, sem ser o camisa 5. Outro ponto importante é que com este posicionamento, o meia tem tocado menos na bola. A média é 37,4 toque por peleja (aproveitamento de 89%)

Ao que tudo indica, para o jogo contra o Santos, nesta quarta-feira, Zé Ricardo colocará Arão, no lugar do Cuéllar. Apesar de preferir o colombiano à Márcio Araújo, como primeiro volante, não vejo a presença do brasileiro como a pior “ruindade” do mundo. O problema, na minha modesta opinião, é não ter pensado em ninguém para fazer o papel de Willian Arão. De continuar mantendo um esquema que nitidamente está sacrificando a equipe, de não ter planejado um jogador para ser reserva. Sabemos que o tempo de treino é escasso, mas, com Arão mal desde o início do ano, Zé poderia ter pensado em alguma saída. Foi na mais convencional, com um elenco que está acima da média, e está pagando pelo erros.

Que os deuses do futebol devolvam a boa fase ao camisa 5. Se ele jogar bem, o time cresce de produção.

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Matheus Brum

Jornalista

Twitter: @matheustbrum

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