Jorge Murtinho: “Postagem repetida (por um motivo justo)”

Discutir futebol é sempre divertido e prazeroso, ainda mais para quem torce pelo Flamengo. Mas há coisas que não admitem discussão. Certo dia, em um almoço com o pessoal do trabalho, um amigo são-paulino disse que o Cafu tinha sido melhor lateral do que o Leandro. Na mesma hora, pedi ao garçom que providenciasse a conta.

Um tema sobre o qual não há chance de debate é o Campeonato Brasileiro de 1987. Qualquer ser humano com o mínimo de bom senso sabe que o campeão foi o Flamengo, e não existe esse papo furado de dividir título com ninguém. É por isso que não tenho paciência quando voltam – e elas sempre voltam – as notícias de que um desses tribunais da vida aceitou algum recurso e a questão será reaberta. Nosso título foi conquistado dentro de campo, de forma irrefutável e em grandes duelos contra os maiores clubes do Brasil. O resto é contenda causídica.

Óbvio que ficaram sequelas, e todo rubro-negro tem a obrigação de sentir o mais profundo desapreço por alguns personagens daquela triste encenação. Exemplo: Emerson Leão, que após uma derrota para o Flamengo quando era técnico de um timeco qualquer, declarou que em 87 o Flamengo tivera medo de enfrentar o Sport. Como se fosse crível que um time com nove jogadores que já tinham estado ou viriam a estar em Copas do Mundo – Zé Carlos, Jorginho, Leandro, Edinho, Leonardo, Renato Gaúcho, Bebeto, Zico e Zinho – pudesse temer qualquer outro do futebol brasileiro, e ainda mais um cuja escalação contava com Betão, Zé Carlos Macaé, Ribamar, Neco e até um falso Zico.

Também devemos desprezar o ex-presidente do São Paulo, Carlos Miguel Aidar. Líder do Clube dos 13 e maior defensor da posição contrária ao bizarro cruzamento entre módulos imposto pela CBF, Aidar fraquejou e não manteve a palavra. (Em novembro de 2014, no programa “Bola da Vez”, da ESPN, Carlos Miguel Aidar foi correto ao responder a pergunta do jornalista PVC, então na emissora: “Quem foi o campeão brasileiro de 87?” Resposta curta e grossa: “O Flamengo”. Entretanto, devido a questões internas do São Paulo, Aidar sempre preferiu se fingir de morto e jamais moveu uma palha para que fosse restabelecida a verdadeira verdade.)

Mais um a merecer nossa repulsa é o ex-goleiro Zetti. Quando um desses tais tribunais declarou o Sport campeão – sempre de forma definitiva, até que chega alguém e diz que não é tão definitiva assim –, Zetti e Rogério Ceni pagaram um orangotango posando sorridentes ao lado da Taça de Bolinhas. Rogério Ceni a gente entende, sempre foi demagogo e sempre adorou jogar para a plateia, mas o caso de Zetti é mais grave: era ele o goleiro titular do Palmeiras no Campeonato Brasileiro de 87, e sabe perfeitamente que, se o seu time tivesse sido campeão, não disputaria cruzamento algum. No entanto, abusando da falta de memória e do cinismo, aceitou tirar a ridícula foto ao lado do troféu. Papelão.

Hoje, e aparentemente por falta do que fazer, já que tudo vai às mil maravilhas no país, o STF confirmou a decisão de 1999 do Tribunal de Justiça de Pernambuco – sim, de Pernambuco – e manteve como campeão brasileiro de 87 o time que enfrentou Guarani, Criciúma, Joinville, Atlético Goianiense, Rio Branco, Internacional de Limeira, CSA, Ceará e Treze de Campina Grande.

Compreendo a postura de várias das nossas diretorias que volta e meia tentam reviver a questão, sobretudo porque os mandatários rubro-negros da ocasião não fizeram o que era para ser feito e não se posicionaram da forma como deveriam, mas estou babando e andando para essas decisões tribunalescas. E a não ser aqui no RP&A, onde somos humildes, bem-vestidos e – como não cansa de repetir o patrão – fechados com o certo, não aceito discutir o assunto.

Simplesmente pelo fato de que sobre ele não cabe discussão.

PS: Este post foi originalmente publicado em 13 de março de 2015, logo após a ministra do Superior Tribunal de Justiça, Laurita Vaz, acatar o recurso extraordinário do Flamengo para que a querela fosse levada ao STF. Achei que valia a pena revisá-lo e republicá-lo agora, após a decisão do órgão máximo do Poder Judiciário brasileiro. Aos que se interessam pelo assunto, vale muito a pena apoiar o lançamento do livro “1987 – A História Definitiva”, de Pablo Duarte Cardoso. Para mais informações, é só acessar http://maquinariaeditora.com.br/maqui/site/index.php?sec=10&id_noticia=253

Jorge Murtinho

Fonte: República Paz & Amor

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