Anderson Alves x Jorge Murtinho: aproveitamento da base rubro-negra

Nesta semana tivemos grandes discussões sobre a base rubro-negra, principalmente com respeito ao aproveitamento dos jovens na equipe profissional do Flamengo.

Nisso, diferentes opiniões surgem sobre o assunto. Foi o que ocorreu com Jorge Murtinho do República Paz & Amor e nosso colunista Anderson Alves que destacaram o assunto, cada qual com sua opinião. Assim colocaremos aqui estas visões opostas sobre o aproveitamento da base rubro-negra.

Confira os textos abaixo, e deixe sua opinião  nos comentários:

“Se eu fosse pai de um jogador da base do Flamengo, eu o tiraria e colocaria em outro time”

É com a célebre frase de Rodrigo “Bigodón” que inicio a coluna ao maior estilo Vinny Dunga. Não é pra tanto, talvez, mas que a situação chega a ser constrangedora, chega.

Foi com estranheza que alguns colegas e leitores receberam meu posicionamento sobre Renê no Flamengo. Para quem ainda não está a par, em minha avaliação, não era necessária a contratação do jovem e promissor lateral. Por que pensaria assim?

Vale para o Renê, mas vale para um possível goleiro. Vale para alguma outra posição em que temos jovens valores pedindo passagem. Vamos nos ater ao Renê, por hora.

Renê é uma grande aquisição, não tenho dúvida. Preocupa a experiência com outros jogadores que não tiveram base em nosso elenco, mas me parece sim um jogador promissor. Talvez lute pau a pau com Trauco pela titularidade.

O grande problema é que o Flamengo fez uma pose de time mudado, com uma postura de valorização da base. A chegada de Renê rema no sentido contrário.

Na nossa base há dois jovens jogadores promissores. Michael é o que mais agrada. É muito incisivo e dribla fácil, procurando o fundo e outras vezes na diagonal. Moraes é mais velho e acabou substituindo-o na copinha deste ano. Teve um início atabalhoado, mas se recobrou e fez um resto de copinha bastante digno, fazendo duas ou três assistências ao que recordo.

Alguém aí acha que Trauco vai se machucar tão gravemente que justifique esse desespero em contratar? Porque como, já disse, este ano só haverá dez datas fifa e a libertadores para nestas ocasiões. Não seria interessante usar estas oportunidades para testar um garoto? “Ah, mas o garoto não pode ter que jogar uma libertadores”, “Vai queimar”… Aí fica difícil. Melhor, como disse um leitor nos comentários da última coluna, fechar a base.

Sabe quantas vezes a terceira opção joga? O Thiago Ennes, por exemplo ficou a ver navios, nem apresentado à torcida foi. Ronaldo ano passado fez duas partidas em que o Flamengo atuou com time reserva. A soma das duas atuações não chega a 43 minutos. Você tem mesmo esperança de o clube testar os dois laterais? Vai esperar até quando? Moraes já tem 19 anos.

O Flamengo tem jovens promissores também. Será que não daria para esperar ao menos o fim do campeonato carioca? Renê vale tanto assim o desespero? Ou será que isto já não é um reflexo de um Mea culpa, afinal, no ano passado havia dois jovens promissores que acertaram com outros clubes de graça e poderiam ter aportado aqui no Mengão? Diogo Barbosa e Marcelo Hermes.

Assim, não é culpa de Renê, mas minha postura se deve ao fato do desejo de que o Flamengo valorize mais a sua base. Testou? Deu um bom número de partidas? Não funcionou? Aí sim, contrata outro e manda embora o menino. Para de ficar iludindo o garoto e o torcedor! Mas pagar de clube formador, do famoso “Craque o Flamengo faz em casa”, não rola. Porque o Flamengo até não tem formado craques, e mesmo os bons e médios jogadores têm vivido de procrastinação e empréstimos mirabolantes para times sem expressão. Hoje, não há, no time principal nenhum prata da casa. E mesmo entre os reservas diretos apenas Juan, que não é revelação, e Thiago figuram sem muita estima.

Enquanto isso renovamos com Everton, Baidu antivírus e Gabriel. Tentamos até ficar com Fernandinho. Assim que valoriza a base?

E você? Acha que o Flamengo está atuando de forma satisfatória neste ponto? A base está sendo valorizada? Chega mais. Vamos bater um papo.

Anderson Alves, O otimista
Coluna do Flamengo


Jorge, Patrick e Joãosinho Trinta

Este é um post em que já entro com a certeza da derrota. Meu ponto de vista é francamente minoritário e se o pessoal estiver disposto a comentar, levarei pancada de tudo que é lado. Paciência. Saiu na chuva, vai se molhar.

O caso é que não tenho o menor apego a essa história das categorias de base. Não sou tonto a ponto de ignorar a importância de se fazer um trabalho bacana com a garotada, mas não compro essa conversa de que fulano tem que jogar só porque veio da base, e menos ainda a de que se é da base é bom. Com a saudável, louvável e formidável exceção do Barcelona, os maiores times do mundo têm pouquíssima gente das divisões de base em seus elencos profissionais. A questão é quantitativa: se há bons jogadores espalhados por todos os cantos do planeta, por que nos limitarmos aos que aparecem para treinar em nossos domínios?

Meu primeiro ídolo no futebol rubro-negro foi o atacante Silva, que não começou no Flamengo. Tinha dez anos de idade, estava no Maracanã e fiquei definitivamente impressionado quando vi Almir rastejar na pequena área e esfregar a testa na lama, para empurrar a bola de cabeça pra dentro do gol e decretar nossa vitória em cima do então ótimo time do Bangu. Almir não frequentou a base do Flamengo. O cara que nos tirou de uma grande seca de seis anos sem títulos estaduais – Paulo Cezar Caju – não apenas passara longe da base rubro-negra como jamais demonstrou a menor identificação emocional com o clube. Eu adorava ver Paulo Cezar jogar pelo Flamengo.

Tudo bem: aí houve o corte epistemológico trazido pela turma de Zico, Júnior, Rondinelli, Andrade, Júlio César, Adílio, Leandro, Mozer, e qualquer argumento contrário sempre esbarra na enxurrada de vitórias e taças do maior período de glórias que já tivemos.

Só que o mundo mudou. E para aqueles que compartilham a tese de que o futebol é maior que a vida, o futebol mudou mais que o mundo. Sabe a entrevista do Leandro, no dia do Jogo das Estrelas, em que ele afirma “eu não sinto falta de jogar, o que eu sinto falta é do grito da torcida, aquele Mengô!, Mengô!, que envolve, que mexe com a alma da gente”? Então, é bom guardar essas lindas palavras na memória, pois elas representam um sentimento que não tem mais espaço no futebol.

A venda de Jorge foi tão discutida quanto em breve será – assim esperamos – a reforma da previdência. Foi muito dinheiro, foi dinheiro de pinga, não tinha nada que ser vendido, venderam na hora certa, etc. Há bons argumentos para cada lado, e muita gente mudando de opinião após as primeiras apresentações de Trauco. Engraçado, o futebol. Volúveis, os torcedores. Um pouco antes da confirmação da venda, foram publicadas reportagens em que Jorge dizia contar os dias da janela de transferências e que sonhava brilhar em alguma liga europeia. Isso com Libertadores batendo na porta, um time forte sendo montado e boas chances de títulos importantes na temporada.

Faço questão de manter um pé atrás em relação a matérias que trazem declarações de jogadores, porque usualmente se omite o contexto em que elas surgiram. Um pouco antes de começar a recente Copinha, li que Patrick tinha pedido uma oportunidade no time de cima. Tentando dar um desconto, pensei: vai ver o repórter chegou no garoto e perguntou se depois do torneio não seria legal receber algumas chances. O menino vai responder o quê? Não, de jeito nenhum, aliás, nem sei o que tô fazendo aqui, o que eu quero mesmo é ser escriturário. Não dá, né? O problema é que, assistindo às apresentações do Patrick, o que vi foi pouca bola e muita marra, e achei o Jean Lucas bem superior a ele.

Vou repetir argumentos que já utilizei em debates na caixa de comentários aqui do RP&A, e provavelmente até em um ou outro post. Como o aproveitamento da base é tema que não sai de cartaz, não vejo problema em retomá-los.

Já houve um tempo em que o moleque bom de bola que torcia para o Flamengo tinha dois sonhos: vestir a vistosa camisa rubro-negra no Maracanã e ser o novo Zico. Hoje, o moleque bom de bola que torce para o Flamengo sonha vestir a camisa do Barcelona no Camp Nou e ganhar tanto dinheiro quanto o Messi. Não julgo, apenas constato.

Creio que a fixação por nossos subisso e subaquilo aumenta quando sofremos com um surto de contratações equivocadas. Para trazer e escalar o volante Val, não há dúvida que seria melhor puxar alguém da base. Qualquer um. Para trazer e escalar o lateral Ayrton, idem. Até aí, beleza, só que o excesso de amor provoca reações esdrúxulas, como a de achar que quem tem Thiago Santos não precisa de Berrío. Devagar com o andor. Toda contratação envolve riscos – a não ser as de cracaços inquestionáveis, que exigem dinheiros que ainda moram longe da Gávea – e Berrío pode até não vingar, mas convém manter o bom senso.

Por outro lado, é evidente que os caras precisam ser testados. Só que é necessário entrar e desempenhar. Adianta nada dar show de altinha no aquecimento e tocar de lado na hora da verdade. Saber jogar bola é uma coisa, ser jogador de futebol do Flamengo é outra. Alguém acha mesmo que, com a abulia e a bolinha que vêm mostrando no Sul-americano Subvinte, Matheus Sávio e Lucas Paquetá podem jogar em nosso time principal?

Ainda dentro da retranca “o futebol mudou mais que o mundo”, fiquemos com as nossas duas últimas conquistas nacionais. Dos catorze caras que foram a campo contra o Grêmio, para conquistar o Campeonato Brasileiro de 2009, havia apenas um formado na base. Adriano. Dos catorze que enfrentaram o Atlético Paranaense e levantaram a Copa do Brasil de 2013, somente o Luiz Antonio – que, registre-se, logo em seguida ao título pôs o clube no pau, alegando dívidas que tanto o Flamengo quanto a Justiça do Trabalho jamais reconheceram.

Porra, Murtinho, já deu. Tomou o nosso tempo, encheu o blog de barbaridades, defendeu o indefensável, ok, opinião é opinião e respeita-se a de cada um. Mas que raios Joãosinho Trinta tem a ver com tudo isso?

Eu estudava na PUC-RJ e tinha vários professores que trabalhavam em jornais. Entre os mestres corria a versão de que a famosa frase de Joãosinho Trinta – “pobre gosta de luxo, quem gosta de miséria é intelectual” – não seria obra dele, e sim do jornalista Elio Gaspari. Durante uma entrevista, Elio Gaspari concluíra um raciocínio de Joãosinho com a frase, o carnavalesco concordou e, na edição do texto, o jornalista percebeu que o conceito ganharia força e charme se fosse atribuído ao entrevistado. Há depoimentos que negam a versão e asseguram a autoria de Joãosinho, mas me lembrei dessa história ao imaginar em que contexto as afirmações de Jorge e Patrick teriam acontecido. Digressão pura.

De qualquer modo, autênticas ou não, manipuladas ou espontâneas, as declarações servem para nos fazer pensar sobre pelo menos duas coisas a respeito da base. Primeira: é preciso parar com a estranha mania de achar que a garotada joga mais do que realmente joga. Segunda: a gente insiste em acreditar que os meninos estão doidos para ser ídolos no Flamengo, quando na verdade tudo o que eles querem é jogar no Mônaco.

Jorge Muritnho
República Paz & Amor


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